A fonte das Mulheres – A luta não pela água, mas por reconhecimento

Lançado em 2011, essa obra dirigida por Radu Mihaileanu de origem francesa (porém falado inteiramente na língua árabe) foi indicado à Palma de Ouro no Festival de Cannes e possui como plano de fundo Marrocos.

Tudo começa a partir de um questionamento: “Por que devemos buscar a água e não os homens?”, pergunta Leila (Leïla Bekthi), depois de presenciar uma cena deverasmente triste no percurso à busca de água para sua aldeia que gera tristeza e revolta: devido ao peso dos baldes cheios de água que carregava, uma mulher grávida perde o bebê nas montanhas.

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Ao mesmo tempo em que um morre, outro nasce com todos os cuidados necessários, seguido de grande festa e ninguém dá a mínima para a tragédia. Isso faz com que Leila se sinta ainda mais revoltada e, enquanto as demais (principalmente as mais velhas) cantam a chegada do menino, ela as interrompe e diz:

“A água traz a vida, a água leva a vida

A vergonha cala as línguas para que elas não falem tragédias

Lágrimas pretas inundam o solo sedento.”

Mas, em resposta, as mulheres se viram a ela com desdém e como se não estivessem escutado apenas prosseguem o canto:

“Nossa terra é árida

Essa é nossa tragédia

Eu concebi a felicidade

Um menino dei à luz”

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Essa passagem mostra claramente a personagem principal tentando dar margem a um questionamento e sendo abafada pelas demais que apenas encobrem as tragédias, felicitando a chegada de um menino que para elas traz bênção à mãe.

Mas, persistente, a personagem não se deixa levar pela indiferença delas e assim que surge mais uma oportunidade de estar com todas reunidas, esta novamente levanta questionamentos, mas, outra vez é abafada por pensamentos conservadores de outras mulheres mais velhas, inclusive de sua sogra que acredita que nada deve ser mudado e discutido: “A mulher deve buscar a água, é assim desde o início dos tempos, é a tradição”.

Porém, o que elas não entendem é que essa “tradição” se deu porque antes os homens iam trabalhar no campo e também lutar na guerra. Mas, no entanto, hoje, a maioria está nas cidades, já que a guerra acabou; e o que fazem? Dormem, tomam chá ou jogam cartas no bar. Logo, para eles com o tempo muita coisa mudou na aldeia, mas, somente para as mulheres continuou a mesma coisa. E é isso que Leila as lembra, mas, mesmo com esse discurso, as outras fazem piadas e voltam a falar incansavelmente de seus maridos, não dando a devida seriedade ao assunto, até que entra em cena a “Velho Fuzil” (Biyouna) que conta sua vida cheia de infelicidades e submissões e dá razão à Leila, dizendo: “é a tradição, estamos acostumadas. Metade das crianças que tivemos morre. Por muito tempo fui tratada como um pária […] ela vem de longe, do sul. O vento do deserto deu a ela a coragem de soprar…enquanto nós prendemos a respiração”. Uma bela metáfora! Pois, tendo ela vindo de longe, possui uma visão maior do que realmente acontece em outros lugares e cria forças para questionar, enquanto as outras presas as suas tradições, fechadas ao novo, preferem não os aceitar.

“Velho Fuzil”, reafirmando o que Leia falou, diz as outras mulheres que eles devem trazer as águas; então, quando questionam como elas irão fazer com que os homens cedam, Leila surge com a ideia de que devem fazer uma “greve de amor”, já que para elas este era o único poder que tinham sobre os homens. Assim, quando indagadas: “quem tem coragem? ”A maioria se levanta e sai.

Mas, não pensem que são todos os homens da aldeia que possuem um pensamento machista! Sami (Saleh Bakri), marido de Leila, acredita que as meninas também devem estudar como os meninos, para aprender a ler e escrever, além de entender os questionamentos de sua esposa e apoiá-la em sua greve. “Você tem o direito de lutar. Não é pecado. Você não faz ideia como o islã iluminado se espalhou. O Islã das luzes! Sua luta é justa.”

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Contrário de Sami, o restante acreditava que a “greve de amor” era uma afronta a sua autoridade como homem e marido, bem como às leis de Alá, já que as mulheres não estavam cumprindo sua condição de esposa. Consequentemente, muitas sofreram violências físicas até cederem ou eram estupradas por seus próprios maridos. No entanto, elas resistiram firmemente!

E mesmo quando Sami propõe que eles cobrem do Estado melhorias, como água encanada, já que a culpa do transtorno é dele, a fim de solucionar o problema das mulheres, os outros homens simplesmente dizem que já solicitaram há muito tempo e nada foi feito; restando assim, para as mulheres continuarem buscando a água nas montanhas, como sempre fizeram.

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Com o tempo, a resistência se amplia, surgindo mais mulheres que resolvem aderir à causa e apoiar umas as outras. A partir disto, muitas surpresas rolam no filme e as atitudes de cada uma, além de afetar as relações com os habitantes da região, também irão revolucionar suas vidas. E eu, como sempre, não contarei o final! Guardarei comigo o desenrolar desta belíssima obra!

O interessante desse filme é observar a visão retrógrada e machista da sociedade conservadora dessa aldeia, tanto de homens, como também mulheres. O olhar acomodada do Estado que não escuta a solicitação da população para poupar gastos e, principalmente, a das mulheres cansadas com as imposições de submissão e servidão.

As falas do filme são bem marcantes e exercem uma importante função em nós, uma vez que nos fazem questionar juntamente com as personagens sobre a situação vivida. Como esta que para mim é sensacional: “Cubram seus olhos e não nossos rostos!”, dita pela Velho Fuzil quando estava falando sobre o uso da burca.

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Por fim, gostaria de acrescentar que não se trata apenas de buscar água. Isso é basicamente uma deixa para falar sobre a problemática vivida pelas mulheres. A submissão, a forma como são tratadas, como se não fossem alguém que merecesse ter uma opinião, conhecimento e argumentos; ter autonomia sobre a vida, sobre as SUAS escolhas.

Repito: não é só a água que elas querem, acima de tudo, elas desejam ser enxergadas! E é isso que todas nós mulheres que convivemos em uma sociedade machista exigimos: termos voz, respeito e reconhecimento.

“A fonte divina das mulheres não é água

A fonte das mulheres é o amor!”

Trailer Oficial

Sobre Karina Oliveira

Futura Jornalista, amante incontestável de literatura e grafites, apaixonada por Milka e por um bom e velho Rock’n Roll!

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